sábado, 31 de maio de 2014

FAST LESSON



Perguntei se queriam que eu publicasse as médias da unidade ou as mantivesse em sigilo. Foi então que lembrei — e contei— uma breve história que o Sr. Benjamin narrou para mim, há algum tempo, falando de um delegado que não sabia o que significava a palavra sigilo. Notei que muitos alunos gostaram da historieta. Um aluno acenou e disse: professora, eu curti. Outro complementou: e eu compartilho!


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Mais que buá, além de blá blá blá



Tia:
—Comeu o chocolate, Isaac?
Isaac:
Comei.
(...)

Ao percorrer  uma loja de departamentos, encontro uma criança ziguezagueando entre corredores de cabides, parecendo desviar-se de mim, a qual diz:
—Pare de me sigue!

Nesses casos, seria realmente necessário o uso do "(SIC)"?!
Luft, em seu livro Língua e liberdade, nos informa que os aparentes erros linguísticos observados nas expressões infantis são, na verdade, hipóteses sendo testadas.
Ah, essas crianças e suas conjugações igualmente maravilhosas !
                                                                                                                                         (RoSmile)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Algumas Crianças da ficção e uma criança real


Desenho de Rick
Crianças são seres encantadores! Minha mente é povoada por cenas e imagens marcantes de crianças – reais e fictícias    que redesenharam a geografia do meu ser, reconfigurando o meu 'sentir o mundo'. Eis alguns  exemplos do meu portfólio:

Hassan, da obra 'O caçador de pipas',  de Khaled Hosseini, transmitiu-me, de modo singular,  a fragilidade inerente àqueles de idade pueril, gerando luto em mim ( em seu contexto histórico-social, havia muitas crianças, mas pouca infância).

Nullah, do filme Austrália, levou- me a irrigar com lágrimas o meu sofá. Todavia, sua argúcia trouxe-me um reconforto, arrematando de mim até risos!

Lúcia, que imprime gracilidade à adaptação cinematográfica da série de Lewis – As Crônicas de Nárnia – , parece ratificar quão justa a herança de alvará do Reino dos Céus dada às crianças. Sua afeição a Aslam é estonteante! O coração infantil não se engana; reconhece, instintivamente, a perfeição.

Ah! E quanto ao protagonista infantil do longa 'Quem quer ser um milionário'? Encantamento! Este  foi o meu estado  ao visualizar a atuação de Ayush Mahesh Khedekar. Neste filme, Jamal Malik – criança –  parecia pertencer a outra esfera de vida. Aliás, penso que as crianças fazem parte de uma dimensão inescrutável ou, talvez, (fale-se baixinho!) de  uma Ordem Secreta Divina!

Da animação, destaco Mano, o infante pinguim, de Happy  Feet( pés felizes), cuja saga nos alerta para o fato de como devemos ser mais sensíveis à diversidade de expressão demonstrada desde a infância. Filme lindo, um espetáculo em que música e sentimento decantaram minha alma!

A história de Happy Feet  induz-me a Rick, um ex-aluno, portador de uma deficiência  – pernas mirradas – condição  que não o impedia de correr, a todo momento, nas vias da escola em que nos conhecemos e tecemos diálogos interessantes. Um desses, quero registrar. Temo esquecer uma experiência que me fortaleceu enquanto me fragilizava.

— Como você age com os colegas que fazem brincadeiras – bullying, na verdade – com relação a sua deficiência? — perguntei, tentando sublimar meu pesar.

— Ah, eu não me importo muito, mas no fundo fico triste. — disse, com olhar distante.

Encorajei-o, enaltecendo suas qualidades e mudei de assunto.

Rick não deixava, nenhum dia sequer, de me cumprimentar ou me ofertar um gesto de carinho (ai daquele que se candidatasse a ajudar a carregar o meu material!). Havia momentos em que duvidava sobre qual de nós cuidava de quem.

Penso que há um mistério – cujo descerramento aguardo com ânsia desmedida – em torno destes entes sagrados. As crianças aqui apresentadas – dentre muitas outras – ajudaram-me  a ajuizar que  se há alguma coisa para  a qual nasci, seja por vocação ou invocação,  foi para isso: contemplar  o coração infantil; de tal modo, sinto- me mais próxima do céu!

 

Professora  Rosana  Souza

sábado, 6 de julho de 2013

O ano em que quase abandonei o magistério




Que ano o de 2001! Até o seu segundo bimestre, classificava-o como o  pior em toda a minha vida profissional. Bem que me acautelaram: magistério não é profissão, é sacerdócio! E mais: o nome não é professor, mas sofressor!

Sabe aquela sensação de que tudo parece conspirar contra você? Foi essa a que se instaurou em mim naquele ano.

As classes em que lecionava me deixavam sem esperança. Era um 6º ano barulhento, um 7º ano  indisciplinado, diversas turmas de ensino médio indiferentes a toda e qualquer intervenção pedagógica. Rara era a recíproca nos cumprimentos diários: bom dia, boa tarde. Geralmente, a resposta vinha em forma de silêncio ou balbúrdia.

O desgosto era extensivo. Transitava até por entre as tarefas e provas que tinha de levar para casa.

Recordo o dia em que montei uma atividade lúdica para uma das turmas. Uma vez que a escola estava sem papel, arquei com o ônus a fim de romper com o ciclo do desinteresse da classe. Após a atividade, um dos alunos rasgou o papel diante dos colegas, expressando insatisfação com a tarefa proposta. Ao saber que o custo do papel fora meu, retrucou: “amanhã eu trago o seu papel”.

Confesso que a certa altura, eu queria deixar tudo: uma década de magistério, a reputação profissional, a empatia com os alunos. A palavra educação e todas as outras que pertenciam ao seu campo semântico me causavam repulsa. Comecei a procurar concursos para outras carreiras. Estava desiludida com a escola.

Não foram raras as vezes em que chorei o meu fado. Senti vergonha de ser professora.

Alguns dos alunos notaram  minha desdita. Respondia que não era nada.

Entretanto, foi na primavera daquele ano que pude observar que a contrapartida era realidade. Depois de receber uma carta de Jumary, volvi meu olhar aos bilhetinhos com versos que recebia desde o início do ano. Passei a me alimentar das inúmeras declarações de amor devoto que recebia no percurso da escola. Deixei que as palavras de Juliane, uma aluna assaz carismática, ressoassem mais forte ao meu ouvido: Professora, como eu te amo; Como está linda hoje; Estava com saudade, minha pró.

Como fui tola em deixar que a algazarra do ambiente escolar camuflasse o carinho que muitos conseguiam demonstrar! Quanto fui indiferente à devoção de Luna, que me abarrotava de frases de admiração irrestrita. Quão censurável fui ao reclamar da insensibilidade de alguns, se grande era a número de alunos concorrendo entre si para me saudar com um beijo, um abraço, um sorriso. Antes de me dirigir à sala do 6º ano, alguns alunos amontoavam-se diante de mim para carregar meus livros, o estojo, o squeeze e, muitas vezes, para não haver zanga, até mesmo minha bolsa entrava na distribuição. Em um desses momentos de concorrência para carregar meu material, ouvi uma aluna do 7º ano dizer: Esses meninos do 6º ano só faltam carregar a roupa da professora!

Corações desenhados no ar e beijos eram lançados para mim.

Assim, resolvi ficar. Aprendi que era uma questão de redirecionamento do olhar.
 
 
                                                                                               Professora Rosana Souza

 

sábado, 15 de junho de 2013

Bo(b)azinha?!







Há dois anos, durante uma aula, após interferir em mais um conflito entre alunos – valendo-me do tríplice antídoto: tolerância, diálogo e bom-humor –, uma estudante do 6º ano dirigiu-se a mim:

– Ô, pró, a senhora é tão  boazinha!

– Não, não sou ‘boazinha’! Mas, entendo que todos nós devemos seguir o propósito de sermos cada vez melhores! – objetei.

Aliás, confesso ter ojeriza à conotação dada a essa expressão. No vocabulário escolar, a/o professor/a bonzinho/boazinha sugere aquela pessoa que concentra a híbrida composição de lerda e boba, ou mesmo coitada! Nesses termos, desobrigo-me de ser boazinha!

Persigo, diuturnamente, o ideal de ser uma pessoa que congregue, entre diversos atributos, a bondade. Não que já seja uma boa pessoa, simplesmente recuso-me a continuar sendo má!

sábado, 1 de junho de 2013

Pés felizes





Quem me conhece, sabe como tenho hiante afeição por crianças. Acredito que seja por isso que amo animações; A era do gelo e Happy Feet são minhas queridinhas. Muitas crianças que assinalaram presença em minha vida – graças à minha escolha profissional – protagonizaram cenas dignas de um Blockbuster. Nunca me esquecerei de Wendley, um garotinho de cabelos arrepiados de quem fui professora na alfabetização. Era 1994. O cenário foi uma festa escolar em que se serviu um almoço. Por conta de uma série de contratempos, cheguei no momento em que as crianças já estavam fazendo a refeição. Quando Wendley me avistou, largou o seu prato e, em passos céleres, foi ao meu encontro. E eu, o que fiz? Ao visualizar suas mãos sujas da mistura farinha-com-feijão, estraguei sua comemoração que culminaria com um abraço – o qual foi dado, mas sob constrangimento – e com a afirmação "pensei que você não vinha, pró". Ao interrogá-lo sobre o estado (limpeza) das suas mãos, fui surpreendida com sua defesa: “Eu fiz assim, ó!", mostrando que virou suas mãozinhas para não me sujar! Como fui leviana! Hoje, já com um olhar menos intoxicado, penso que agiria de outra forma; talvez articulasse, em pensamento: “Que importa uma sujeirinha, que é lavável, diante de um gesto que limpa qualquer nódoa de desamor?”.

Quero, também, trazer à cena Victória, uma loirinha esperta que vivia pulando, cantando e dançando. Certa vez, retornou – correndo, obviamente – do recreio, só parando próximo a mim, como se freasse, para me fazer um afago cheio de generosidade. Segurando uma das minhas bochechas, veio-me com esta declaração inusitada: "Coisa fofa com essas pintinhas lindas no rosto!”. As pintinhas eram as marcas de espinhas, herança da minha adolescência. Acho que foi o eufemismo infantil mais criativo de que tive ciência!

Mano é o pinguim protagonista da animação Happy Feet (pés felizes). Como não tinha uma voz afinada, foi discriminado pela sua comunidade. Apostou, então, na habilidade (ou melhor, na felicidade) dos pés para tornar-se aceitável, embora, inicialmente, em vão.  

Rick, um ex-aluno muito comunicativo, também possui pés felizes. A despeito de uma deficiência que o força a andar trôpego e a exibir pernas mirradas (além de, volta e meia, ouvir gracejos maldosos de alguns colegas; escorrega no quiabo é um desses chistes), Rick demonstra ser uma criança muito feliz: corre, pula, brinca e participa fervorosamente das atividades propostas  na escola. Na época em que lecionei em sua turma, voluntariou-se para ser um dos sacis que representariam sua equipe na gincana do folclore. Nunca vi um Saci-Pererê tão bem-disposto! Ao final da sua apresentação, perguntou-me como tinha se saído, queria minha avaliação. Em seguida, exibiu-se: “Acho que minha equipe vai ganhar, porque me esforcei muito!" Assim aconteceu, a equipe dos pés mais felizes que conheço foi a vencedora daquela competição! Aqueles que me leem assiduamente devem lembrar que Mano e Rick já figuraram em outra produção minha. Neste momento, recorro a tais personagens porque ambos levantam uma pauta de questões humanas que englobam o viver em comunidade, sendo uma delas: o anseio comum de pertencimento.

Mano, o pinguim, quis fazer parte do seu grupo e contribuir com os movimentos alegres dos seus pés. Rick, o menino das pernas emurchecidas, não teve qualquer embaraço ao participar de uma atividade em que os membros inferiores seriam ferramentas essenciais; sem hesitação, ele autodesafiou-se e evidenciou que as deficiências não devem suplantar a disposição para [a]ventura. Wendley e Victória aceleraram passos para demonstrar júbilo com grande afã.
Conjecturo, portanto, que o conceito de felicidade, para os infantes, tem a ver com correria.
Assim, arremato, certa de que as três crianças aqui mencionadas – representando todas as outras – têm em comum a linda vocação de irem ao encontro do que amam, do que lhes faz bem. Correndo. Felizes.
Professora Rosana Souza



segunda-feira, 20 de maio de 2013

A liberdade dos escritores

                                             Desenho que retrata o filme Escritores da Liberdade,
                                            produzido por Amanda Oliveira, aluna da turma 2V3
                                       do CMLEM -Alagoinhas.



Naquele sábado letivo, testemunhamos alunos tão receptivos ao trabalho proposto pelo grupo de professores de Linguagens que pensei estar na ficção! A primeira atividade foi a audiovisualização do filme Escritores da liberdade no auditório do colégio. Houve de tudo durante a exibição: risos, aplausos e outros modus operandi teens ! Assim, avalio que houve, sobretudo, sensibilização por tratar-se de uma temática com a qual os estudantes se identificaram. 
No filme, retratam-se realidades diversas, que incluem violência urbana,  evasão e baixo rendimento escolares, além de problemas que denunciam uma estrutura educacional viciosa e, como diferencial, uma professora de primeira viagem idealizando um trabalho que, no mínimo, promovesse a empatia. E, a despeito das pedras e perdas, Erin Gruwell, a professora heroína, consegue o inimaginável: a adesão de alunos classificados como infratores — e outros adjetivos correlatos — a um projeto de mudança de vida por meio da prática da leitura e da escrita. Suas histórias são reconfiguradas a partir disso!
O trabalho com este filme trouxe desdobramentos surpreendentes: poemas, desenhos, textos autobiográficos, apresentação com hip hop, dentre outras expressões. Notei, a partir deste momento, que a educação  precisa despertar as virtudes adormecidas, libertar os escritores, dar voz aos cantores, desvelar os artistas, sob pena de constituir-se algoz de uma geração de sonhos aprisionados! Sobrevieram-me também as imagens utilizadas por Rubem Alves: escola, gaiolas e voo — quando ponderei sobre a ideia de liberdade presente no longa em questão. Em muitos aspectos, a escola tem cumprido a função de gaiola. É preciso, em vez disso, fazer dessa instituição  — ainda partindo da concepção de Rubem Alves— uma agência promotora de voos inimagináveis! 





 

Feliz Dia do Semeador de sonhos!