segunda-feira, 7 de setembro de 2020


Uma lição linguística abordada em O menino que descobriu o vento



Em O menino que descobriu o vento,  William não só descobriu que o vento pode cooperar para reverter situações adversas, ele também aprendeu que pode(mos) voar através dos sonhos.

Chamou a minha atenção a cena em que o professor Kachigunda tentava convencer a irmã do protagonista a fugir com ele para outra região ( Mangochi), ao que ela retrucou:” eu não sei falar ajaua” . Ele, por sua vez, sugeriu: “você pode falar inglês!”
Este diálogo me permitiu constatar: “ eu posso não saber um outro idioma, mas, se eu sei inglês, eu sei todos!”

domingo, 6 de setembro de 2020

 



      Indico a leitura de "Pensatas pedagógicas", de Mário Sérgio Cortella.


 


                                                                  Um mimo da aluna Luana

  exercício pedagógico é um desafio contínuo. Eu desisto e insisto dele/nele todos os dias! Vale lembrar que tem até dia de DR em algumas turmas. Eu só sei assim... tem de haver imersão!

Dia do Estudante 2020



 Querido estudante, 

Aceno para você, neste momento, por ser hoje o seu dia e por acreditar que você é razão e alvo de uma construção social a que se denomina educação! Não aquela educação agenciada em discursos e cuja semântica não ultrapassa a linha da simples escolarização. Falo da educação coadjuvante do processo de formação e despertamento da identidade. Por isso, quero evocar duas adolescentes que, para mim, são modelos de estudantes revolucionárias: ANNE FRANK e MALALA YOUSAFZAI. Assim como você, que foi impedido de ir à escola — mas, não de estudar — por conta de uma batalha no âmbito da saúde pública, a da covid-19, ambas enfrentaram guerras. Isto sem contar com as lutas íntimas que todo adolescente trava!

Anne viveu a 2ª Guerra Mundial, Malala comprou uma ao confrontar o fundamentalismo do Talibã em seu país. Em um esconderijo, Anne mantinha uma disciplinada rotina de estudos, mesmo temendo a iminente prisão e morte pela perseguição Nazista. O seu diário tornou-se um legado à humanidade! Malala, por sua vez, infringiu uma das normas impostas pelo talibã: meninas não devem frequentar escola. Isto quase lhe custou a vida. Isto foi também o ponto de partida para uma história que mereceu o Nobel da paz em 2014. Duas adolescentes; duas guerras; uma escolha: a educação como direito imediato.
Cumpre lembrar, meu caro estudante, que a pandemia atual evidencia uma guerra multidimensional, entretanto você dispõe de armas de potencial gigantesco, um sem-número de possibilidades: os livros, as videoaulas, os filmes, as séries, os documentários — um menu infinito de informações para você selecionar, criteriosamente,
para a construção do seu maior patrimônio: o seu conhecimento! Sirva-se!
Ao finalizar, quero receitar-lhe uma dose de versos de Quintana:
“A vida é nova... 
A vida é nova e anda nua 
- vestida apenas com o teu desejo!”
Feliz vida de estudante!
Um afago na sua alma!
See you soon!❤️

Teacher Rosana Souza


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Amainando conflitos

       Conflitos são lugares-comum no cotidiano da escola, são inerentes à sua dinâmica. Logo, ser educador é também ser pacificador; por vezes advogado,ou mesmo juiz. Na minha jornada, coleciono experiências de finais felizes ante a pequenos conflitos. Pensei até em criar um manual cujo título seria “Receitas infalíveis de mediar conflitos em sala de aula”.

Apartando briga: Ao sair de uma sala , deparei-me com dois alunos que se atracavam, trocando tapas e murros. Pedi, em voz alta, que parassem. Nada. Nervosa, ordenei que parassem. Nenhum sucesso. “Ah, então vocês estão gostando de se agarrar?!”, foi a minha cartada final. Pareceu mágico o efeito das minhas palavras. Os beligerantes interromperam imediatamente o combate.

Adequando o vocabulário: Na moral é uma gíria encontrada no vocabulário de muitos adolescentes com os quais trabalho; sua significação deve ser próxima à “numa boa”; trata-se da roupagem teen de  “por favor”.Numa dada situação de confronto em que um aluno importunava sua colega, dirigi-me a ele:–Na moral, Fernando, pare de perturbar sua colega!Ele a deixou em paz e justificou:– Aê, prof, só vou obedecer porque a senhora usou as palavras certas.

Guardando segredo: A professora de Geografia passava pelo corredor que dava acesso a sala onde teria sua próxima aula. Sandro a seguia, imitando-a em seu andar. Ao perceber que eu o flagrava, imediatamente veio ao meu encontro, já dizendo:

–Ô, pró, PELOAMORDEDEUS, não conta nada pra ela.

–Meu Deus, mais uma bomba para eu desativar – pensei rapidamente.

De súbito, respondi:

–Está bem, está bem, mas vê se não apronta mais!Mais tarde, ao realizar a chamada nominal em sua classe, Sandro olhou para mim e, sorrindo, disse:–Eu e a pró temos um segredo, né, pró? 

        Além dessas, há inúmeras experiências sobre as quais ainda tenho dúvidas se agi conforme a ética da minha profissão. Só estou certa mesmo é de que muitas delas são  hilariantes e inesquecíveis.Na verdade, até o presente momento, ignoro onde está o limite entre o pedagógico/didático/ético e o feedback imediato que as relações vivenciadas na escola requerem de nós, mediadores do conhecimento. Apenas julgo que, para nos manter na luta, em nome da paz na escola – e na vida – as poucas armas de que dispomos são o diálogo, a afetividade, os acordos de convivência e —  muitas vezes — a criatividade.

Rosana Souza

 

 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Won'o, o flagra!



Proposição: A pesca emburrece, induz ao erro mais facilmente, subestima e aplaca a autonomia do sujeito no seu processo de construção da aprendizagem.

Vivenciar uma semana de provas é, talvez, uma das experiências mais desgastantes do cotidiano escolar. Parece que nós, professores, nos submetemos a uma brincadeira de 'gato e rato' ou mesmo de Sherlock Holmes, a fim de garantir o êxito do processo. A cola — ou pesca, como é conhecida em minha região — é uma ameaça iminente para o professor. Para alguns estudantes, uma prática frequente e, até, um ato salvador!

Keep calm, o estresse ainda não acabou! E quando chega o dia de apresentar o resultado das avaliações? Aí é outra história! Percebo que ganhei antipatizantes, uma vez que sempre procurei usar um padrão de equidade, no tocante a aferição da aprendizagem da minha matéria! Lembro-me de uma frase que dizia " Professor  e aluno são amigos para sempre até que a nota os separa".

Em minha carreira ( ou seria correria?), já experimentei de um-quase-tudo e, quando parecia que já tinha vivido toda a minha cota de surpresas, neste ano, algo surreal aconteceu! Vamos aos fatos.

Ao corrigir a atividade de uma turma de ensino médio, observei a recorrência de um erro curioso: onde deveria aparecer won't ( contração de will + not), um estranho won'o prevalecia nas respostas apresentadas. Acionei meu detector de pescas. Não demorou para que eu delineasse o percurso do won'o . Lembrei imediatamente de uma aluna considerada " fera" em Inglês cuja grafia tem formas bem arredondadas. Daí, conjecturei: ao escrever won't, o traçado do seu 't' deu a impressão de ser 'o'; por isso, o primeiro a colar, escreveu won'o. Confirmei esta tese quando verifiquei a resposta original da referida aluna. Ponto pra mim!

Situação semelhante foi observada na turma A, quando notei que um grupo de 7 ou 8 alunos erraram as mesmas questões em um teste de múltipla escolha. Teria sido coincidência, caso o best student não tivesse os mesmos erros.
Antes de advertir às turmas dos alunos infratores, fiz uma preleção sobre o assunto, explicando a linha de raciocínio optada para confirmar minhas deduções  e enfatizando o quanto é perigoso cultivar a prática da pesca/cola. Quando pensava ter instaurado uma esfera de seriedade e reflexão, um aluno saiu com esta tirada: " Professora, a senhora deveria trabalhar no CSI!"

É, caro leitor, ser educador é estar sujeito a coisas desse tipo. Mas, sabe de uma coisa? Aprendo e autoavalio-me constantemente, e, claro, divirto-me muito com tudo isso!



                                                                                                                      Professora Rosana Souza

sábado, 31 de maio de 2014

FAST LESSON



Perguntei se queriam que eu publicasse as médias da unidade ou as mantivesse em sigilo. Foi então que lembrei — e contei— uma breve história que o Sr. Benjamin narrou para mim, há algum tempo, falando de um delegado que não sabia o que significava a palavra sigilo. Notei que muitos alunos gostaram da historieta. Um aluno acenou e disse: professora, eu curti. Outro complementou: e eu compartilho!


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Mais que buá, além de blá blá blá



Tia:
—Comeu o chocolate, Isaac?
Isaac:
Comei.
(...)

Ao percorrer  uma loja de departamentos, encontro uma criança ziguezagueando entre corredores de cabides, parecendo desviar-se de mim, a qual diz:
—Pare de me sigue!

Nesses casos, seria realmente necessário o uso do "(SIC)"?!
Luft, em seu livro Língua e liberdade, nos informa que os aparentes erros linguísticos observados nas expressões infantis são, na verdade, hipóteses sendo testadas.
Ah, essas crianças e suas conjugações igualmente maravilhosas !
                                                                                                                                         (RoSmile)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Algumas Crianças da ficção e uma criança real


Desenho de Rick
Crianças são seres encantadores! Minha mente é povoada por cenas e imagens marcantes de crianças – reais e fictícias    que redesenharam a geografia do meu ser, reconfigurando o meu 'sentir o mundo'. Eis alguns  exemplos do meu portfólio:

Hassan, da obra 'O caçador de pipas',  de Khaled Hosseini, transmitiu-me, de modo singular,  a fragilidade inerente àqueles de idade pueril, gerando luto em mim ( em seu contexto histórico-social, havia muitas crianças, mas pouca infância).

Nullah, do filme Austrália, levou- me a irrigar com lágrimas o meu sofá. Todavia, sua argúcia trouxe-me um reconforto, arrematando de mim até risos!

Lúcia, que imprime gracilidade à adaptação cinematográfica da série de Lewis – As Crônicas de Nárnia – , parece ratificar quão justa a herança de alvará do Reino dos Céus dada às crianças. Sua afeição a Aslam é estonteante! O coração infantil não se engana; reconhece, instintivamente, a perfeição.

Ah! E quanto ao protagonista infantil do longa 'Quem quer ser um milionário'? Encantamento! Este  foi o meu estado  ao visualizar a atuação de Ayush Mahesh Khedekar. Neste filme, Jamal Malik – criança –  parecia pertencer a outra esfera de vida. Aliás, penso que as crianças fazem parte de uma dimensão inescrutável ou, talvez, (fale-se baixinho!) de  uma Ordem Secreta Divina!

Da animação, destaco Mano, o infante pinguim, de Happy  Feet( pés felizes), cuja saga nos alerta para o fato de como devemos ser mais sensíveis à diversidade de expressão demonstrada desde a infância. Filme lindo, um espetáculo em que música e sentimento decantaram minha alma!

A história de Happy Feet  induz-me a Rick, um ex-aluno, portador de uma deficiência  – pernas mirradas – condição  que não o impedia de correr, a todo momento, nas vias da escola em que nos conhecemos e tecemos diálogos interessantes. Um desses, quero registrar. Temo esquecer uma experiência que me fortaleceu enquanto me fragilizava.

— Como você age com os colegas que fazem brincadeiras – bullying, na verdade – com relação a sua deficiência? — perguntei, tentando sublimar meu pesar.

— Ah, eu não me importo muito, mas no fundo fico triste. — disse, com olhar distante.

Encorajei-o, enaltecendo suas qualidades e mudei de assunto.

Rick não deixava, nenhum dia sequer, de me cumprimentar ou me ofertar um gesto de carinho (ai daquele que se candidatasse a ajudar a carregar o meu material!). Havia momentos em que duvidava sobre qual de nós cuidava de quem.

Penso que há um mistério – cujo descerramento aguardo com ânsia desmedida – em torno destes entes sagrados. As crianças aqui apresentadas – dentre muitas outras – ajudaram-me  a ajuizar que  se há alguma coisa para  a qual nasci, seja por vocação ou invocação,  foi para isso: contemplar  o coração infantil; de tal modo, sinto- me mais próxima do céu!

 

Professora  Rosana  Souza

sábado, 6 de julho de 2013

O ano em que quase abandonei o magistério




Que ano o de 2001! Até o seu segundo bimestre, classificava-o como o  pior em toda a minha vida profissional. Bem que me acautelaram: magistério não é profissão, é sacerdócio! E mais: o nome não é professor, mas sofressor!

Sabe aquela sensação de que tudo parece conspirar contra você? Foi essa a que se instaurou em mim naquele ano.

As classes em que lecionava me deixavam sem esperança. Era um 6º ano barulhento, um 7º ano  indisciplinado, diversas turmas de ensino médio indiferentes a toda e qualquer intervenção pedagógica. Rara era a recíproca nos cumprimentos diários: bom dia, boa tarde. Geralmente, a resposta vinha em forma de silêncio ou balbúrdia.

O desgosto era extensivo. Transitava até por entre as tarefas e provas que tinha de levar para casa.

Recordo o dia em que montei uma atividade lúdica para uma das turmas. Uma vez que a escola estava sem papel, arquei com o ônus a fim de romper com o ciclo do desinteresse da classe. Após a atividade, um dos alunos rasgou o papel diante dos colegas, expressando insatisfação com a tarefa proposta. Ao saber que o custo do papel fora meu, retrucou: “amanhã eu trago o seu papel”.

Confesso que a certa altura, eu queria deixar tudo: uma década de magistério, a reputação profissional, a empatia com os alunos. A palavra educação e todas as outras que pertenciam ao seu campo semântico me causavam repulsa. Comecei a procurar concursos para outras carreiras. Estava desiludida com a escola.

Não foram raras as vezes em que chorei o meu fado. Senti vergonha de ser professora.

Alguns dos alunos notaram  minha desdita. Respondia que não era nada.

Entretanto, foi na primavera daquele ano que pude observar que a contrapartida era realidade. Depois de receber uma carta de Jumary, volvi meu olhar aos bilhetinhos com versos que recebia desde o início do ano. Passei a me alimentar das inúmeras declarações de amor devoto que recebia no percurso da escola. Deixei que as palavras de Juliane, uma aluna assaz carismática, ressoassem mais forte ao meu ouvido: Professora, como eu te amo; Como está linda hoje; Estava com saudade, minha pró.

Como fui tola em deixar que a algazarra do ambiente escolar camuflasse o carinho que muitos conseguiam demonstrar! Quanto fui indiferente à devoção de Luna, que me abarrotava de frases de admiração irrestrita. Quão censurável fui ao reclamar da insensibilidade de alguns, se grande era a número de alunos concorrendo entre si para me saudar com um beijo, um abraço, um sorriso. Antes de me dirigir à sala do 6º ano, alguns alunos amontoavam-se diante de mim para carregar meus livros, o estojo, o squeeze e, muitas vezes, para não haver zanga, até mesmo minha bolsa entrava na distribuição. Em um desses momentos de concorrência para carregar meu material, ouvi uma aluna do 7º ano dizer: Esses meninos do 6º ano só faltam carregar a roupa da professora!

Corações desenhados no ar e beijos eram lançados para mim.

Assim, resolvi ficar. Aprendi que era uma questão de redirecionamento do olhar.
 
 
                                                                                               Professora Rosana Souza

 

sábado, 15 de junho de 2013

Bo(b)azinha?!







Há dois anos, durante uma aula, após interferir em mais um conflito entre alunos – valendo-me do tríplice antídoto: tolerância, diálogo e bom-humor –, uma estudante do 6º ano dirigiu-se a mim:

– Ô, pró, a senhora é tão  boazinha!

– Não, não sou ‘boazinha’! Mas, entendo que todos nós devemos seguir o propósito de sermos cada vez melhores! – objetei.

Aliás, confesso ter ojeriza à conotação dada a essa expressão. No vocabulário escolar, a/o professor/a bonzinho/boazinha sugere aquela pessoa que concentra a híbrida composição de lerda e boba, ou mesmo coitada! Nesses termos, desobrigo-me de ser boazinha!

Persigo, diuturnamente, o ideal de ser uma pessoa que congregue, entre diversos atributos, a bondade. Não que já seja uma boa pessoa, simplesmente recuso-me a continuar sendo má!

sábado, 1 de junho de 2013

Pés felizes





Quem me conhece, sabe como tenho hiante afeição por crianças. Acredito que seja por isso que amo animações; A era do gelo e Happy Feet são minhas queridinhas. Muitas crianças que assinalaram presença em minha vida – graças à minha escolha profissional – protagonizaram cenas dignas de um Blockbuster. Nunca me esquecerei de Wendley, um garotinho de cabelos arrepiados de quem fui professora na alfabetização. Era 1994. O cenário foi uma festa escolar em que se serviu um almoço. Por conta de uma série de contratempos, cheguei no momento em que as crianças já estavam fazendo a refeição. Quando Wendley me avistou, largou o seu prato e, em passos céleres, foi ao meu encontro. E eu, o que fiz? Ao visualizar suas mãos sujas da mistura farinha-com-feijão, estraguei sua comemoração que culminaria com um abraço – o qual foi dado, mas sob constrangimento – e com a afirmação "pensei que você não vinha, pró". Ao interrogá-lo sobre o estado (limpeza) das suas mãos, fui surpreendida com sua defesa: “Eu fiz assim, ó!", mostrando que virou suas mãozinhas para não me sujar! Como fui leviana! Hoje, já com um olhar menos intoxicado, penso que agiria de outra forma; talvez articulasse, em pensamento: “Que importa uma sujeirinha, que é lavável, diante de um gesto que limpa qualquer nódoa de desamor?”.

Quero, também, trazer à cena Victória, uma loirinha esperta que vivia pulando, cantando e dançando. Certa vez, retornou – correndo, obviamente – do recreio, só parando próximo a mim, como se freasse, para me fazer um afago cheio de generosidade. Segurando uma das minhas bochechas, veio-me com esta declaração inusitada: "Coisa fofa com essas pintinhas lindas no rosto!”. As pintinhas eram as marcas de espinhas, herança da minha adolescência. Acho que foi o eufemismo infantil mais criativo de que tive ciência!

Mano é o pinguim protagonista da animação Happy Feet (pés felizes). Como não tinha uma voz afinada, foi discriminado pela sua comunidade. Apostou, então, na habilidade (ou melhor, na felicidade) dos pés para tornar-se aceitável, embora, inicialmente, em vão.  

Rick, um ex-aluno muito comunicativo, também possui pés felizes. A despeito de uma deficiência que o força a andar trôpego e a exibir pernas mirradas (além de, volta e meia, ouvir gracejos maldosos de alguns colegas; escorrega no quiabo é um desses chistes), Rick demonstra ser uma criança muito feliz: corre, pula, brinca e participa fervorosamente das atividades propostas  na escola. Na época em que lecionei em sua turma, voluntariou-se para ser um dos sacis que representariam sua equipe na gincana do folclore. Nunca vi um Saci-Pererê tão bem-disposto! Ao final da sua apresentação, perguntou-me como tinha se saído, queria minha avaliação. Em seguida, exibiu-se: “Acho que minha equipe vai ganhar, porque me esforcei muito!" Assim aconteceu, a equipe dos pés mais felizes que conheço foi a vencedora daquela competição! Aqueles que me leem assiduamente devem lembrar que Mano e Rick já figuraram em outra produção minha. Neste momento, recorro a tais personagens porque ambos levantam uma pauta de questões humanas que englobam o viver em comunidade, sendo uma delas: o anseio comum de pertencimento.

Mano, o pinguim, quis fazer parte do seu grupo e contribuir com os movimentos alegres dos seus pés. Rick, o menino das pernas emurchecidas, não teve qualquer embaraço ao participar de uma atividade em que os membros inferiores seriam ferramentas essenciais; sem hesitação, ele autodesafiou-se e evidenciou que as deficiências não devem suplantar a disposição para [a]ventura. Wendley e Victória aceleraram passos para demonstrar júbilo com grande afã.
Conjecturo, portanto, que o conceito de felicidade, para os infantes, tem a ver com correria.
Assim, arremato, certa de que as três crianças aqui mencionadas – representando todas as outras – têm em comum a linda vocação de irem ao encontro do que amam, do que lhes faz bem. Correndo. Felizes.
Professora Rosana Souza



segunda-feira, 20 de maio de 2013

A liberdade dos escritores

                                             Desenho que retrata o filme Escritores da Liberdade,
                                            produzido por Amanda Oliveira, aluna da turma 2V3
                                       do CMLEM -Alagoinhas.



Naquele sábado letivo, testemunhamos alunos tão receptivos ao trabalho proposto pelo grupo de professores de Linguagens que pensei estar na ficção! A primeira atividade foi a audiovisualização do filme Escritores da liberdade no auditório do colégio. Houve de tudo durante a exibição: risos, aplausos e outros modus operandi teens ! Assim, avalio que houve, sobretudo, sensibilização por tratar-se de uma temática com a qual os estudantes se identificaram. 
No filme, retratam-se realidades diversas, que incluem violência urbana,  evasão e baixo rendimento escolares, além de problemas que denunciam uma estrutura educacional viciosa e, como diferencial, uma professora de primeira viagem idealizando um trabalho que, no mínimo, promovesse a empatia. E, a despeito das pedras e perdas, Erin Gruwell, a professora heroína, consegue o inimaginável: a adesão de alunos classificados como infratores — e outros adjetivos correlatos — a um projeto de mudança de vida por meio da prática da leitura e da escrita. Suas histórias são reconfiguradas a partir disso!
O trabalho com este filme trouxe desdobramentos surpreendentes: poemas, desenhos, textos autobiográficos, apresentação com hip hop, dentre outras expressões. Notei, a partir deste momento, que a educação  precisa despertar as virtudes adormecidas, libertar os escritores, dar voz aos cantores, desvelar os artistas, sob pena de constituir-se algoz de uma geração de sonhos aprisionados! Sobrevieram-me também as imagens utilizadas por Rubem Alves: escola, gaiolas e voo — quando ponderei sobre a ideia de liberdade presente no longa em questão. Em muitos aspectos, a escola tem cumprido a função de gaiola. É preciso, em vez disso, fazer dessa instituição  — ainda partindo da concepção de Rubem Alves— uma agência promotora de voos inimagináveis! 





 

domingo, 12 de maio de 2013

A palavra que (não) querem calar


 
 
Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
(Cecília Meireles)
 
Naquela tarde, a atividade era sobre os fonemas da letra "x".
Propus uma competição entre grupos.
Vamos ver qual equipe consegue o maior número de palavras com "x"?
– Vamos! – responderam os alunos da turma de 6° ano mais agitada e fofa da escola no ano letivo de 2012.
A cada 2 minutos, um aluno vinha ao meu encontro perguntando se esta ou aquela palavra poderia fazer parte da lista.
Outros eventos foram interessantes, mas mais curioso que este que passarei a relatar, é impensável!
O grupo de Levi, Jones e Luka era o que mais visitava a minha mesa, solicitando ajuda ou apresentando dúvidas. Era este o grupo dos pequenos, mas de interesse enorme em aprender!
Dentre essas solicitações, uma merece destaque:
– Pró, Luka perguntou se... – falou Levi.
– Eu não, você!– interrompe Luka.
– Qual é a dúvida? – perguntei.
– Ah, se vocês não têm coragem... – disse Jones.
– O que é?– reforcei.
– Sexo, pode?– disse Luka, em tom corajoso.
– Sexo é uma palavra?– retruquei.
– É!– respondeu o trio.
– Então...– concluí.
O que se viu, em seguida, foi uma correria para grafar a tal palavra.
Não menos que dois grupos vieram a mim para saber também se 'sexo' podia!
                                                                    
Professora Rosana Souza

sábado, 4 de maio de 2013

Jovens também morrem




Sei que pode soar como clichê, mas a juventude parece estar em extinção! Ser mãe, pai, professor/a, cuidador/a e afins têm sido cada vez mais doloroso, uma vez que muitas despedidas foram antecipadas! Esta elocução foi motivada por perdas recentes. Assim, como educadora – daí sobrevindo o ofício de testemunhar caminhos e descaminhos de jovens – sinto-me compelida a extravasar o meu luto!
Na unidade de ensino em que leciono há 21 anos(!), tomamos conhecimento de inúmeros casos de mortes de adolescentes e jovens que lá estudaram. Tais relatos nos deixam consternados: acidentes trágicos, assassinatos e, no caso mais recente – segundo informações – falha na prestação do serviço público de saúde! 
É inevitável;  indagamo-nos o porquê! Entretanto, atrevo-me, aqui, a declarar a causa mortis desta juventude, a qual é, senão as duas coisas, uma delas: descaso e desamor. O descaso advém de uma conjuntura de governo que se faz omissa e imprecisa. O desamor vem da falta de exemplos, de valores sagrados pouco vistos nas famílias, nas instituições ou comunidades. De qualquer sorte, mesmo corroída por lamento, uno-me àqueles que ainda se importam e oro na esperança de consolo, e de uma fé que se converta em ação!

                                                                                                                         Professora Rosana Souza


P.S.: O presente registro constitui uma singela homenagem à memória de ex-alunos cuja lembrança desfere constrição ao meu coração.Thairine Nogueira, Gisele Cordeiro e Erick Pereira são alguns deles.

domingo, 28 de abril de 2013

Das redes ( e anzóis) sociais!

Pus-me a pensar sobre como as redes sociais digitais têm agenciado novas formas ortográficas. Para exemplificar, selecionemos um dos posts virais, que mescla interferências da oralidade, humor em superdose e distância do Aurélio. Fico intrigada com o xatiado, muitas vezes acompanhado da imagem de um pet ou mesmo de uma criança super fofa; para os que adquiriram uma boa medida de letramento, pode representar acréscimo ou variação. Todavia, pensando nos lusófonos mirins, ou mesmo naqueles que circulam nas vias do analfabetismo funcional, isso é estagnação – para não classificar como regressão!
Parece que não só os vírus dos crackers, mas também uma virose linguística perambula nas infovias, acessando livremente espaços comunicativos em que se deveriam aprimorar a proficiência no nosso vernáculo – ou mesmo no inglês, língua franca da internet. Tudo bem , humor sempre é bem-vindo (dou gargalhadas com #asminapira, #todasama etc.); utilizar a língua materna e suas redes (variações), em seus 'quadrados'( considerando seu caráter situacional), seria até animador! Entretanto, urge que se avise aos navegantes para não se prenderem em anzóis malvados – concerteza, porisso, derrepente e cia. são dos mais letais!
 
                                                                                                                        Professora Rosana Souza

quarta-feira, 24 de abril de 2013

É homem ou mulher?

Deparei-me com uma ansiedade incontida ao saber que iria lecionar língua inglesa numa escola de ensino médio. Comecei. Esforcei-me para aplicar os conhecimentos obtidos nos cursos que havia feito. Minhas primeiras exposições foram barradas por algumas frases dos alunos:
– Peraê, teacher, a gente não sabe nem o português...
– Fessora, como é que se diz “burro” em inglês pra eu chamar aquele menino...
– Prof, em inglês, eu só aprendi “the book is on the table”...
Curioso mesmo foi observar o diálogo entre duas alunas que tentavam responder uma atividade escrita proposta numa das minhas aulas:
Home é homem–disse uma.
–Não! Home é mulher!– retrucou a outra.
Após exaustiva discussão, uma delas dirigiu-se a mim e perguntou:
–Afinal, professora, home é homem ou mulher?
As experiências eram(e continuam sendo!) das comuns às mais insólitas, muitos alunos faziam perguntas sobre a tradução de nomes de marcas famosas, frases de cadernos, letras de músicas, mensagens de celular, “como é meu nome em inglês?”. Um estudante foi apelidado de TOBÉ por seus colegas. O fato que originou essa alcunha ocorreu na aula de outra professora , a qual, após transcrever no quadro o nome do verbo a ser estudado, obteve a nova pronúncia do famoso to be. E mais: alguns alunos amam fazer adaptações à língua inglesa. Certa vez, antes de apagar o quadro, perguntei :
–Copiaram?
–Copiation[leia-se : copiêixan] – respondeu a divertida Karine.
Oh, my God!
                                                                                                           Professora Rosana Souza

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Acerca de viagens e transeuntes



Gosto da imagem transmitida pelas palavras transeuntes e viagens porque sou apaixonada pela ideia de Pessoa, que igualou a viagem aos viajantes: A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos. A escola, a família, a sociedade, a vida são seus membros. Destarte, não há caminhos ou mapas a se seguirem, há viandantes a serem aprimorados.
Muitas foram as situações de embaraço em que questionei a minha opção pelo magistério. Às vezes, perguntava para mim mesma: ”O que é que eu estou fazendo aqui?” Todavia, não foram raras as vezes em que concluí, confessando secretamente:”Ah, eu deveria era estar aqui mesmo!”( Não existiria lugar melhor para eu estar) Se eu não estivesse neste lugar como veria Marianna soletrando as suas primeiras sílabas gráficas? Abalizando as letras com seus dedos, ela dizia:  com i, mi;  com i, mi - Mimi, pronto, Mimi (olhava para mim, seus olhos rindo). Eu quase não acreditava que tinha parcela naquele evento.
O ambiente da sala de aula, fisicamente limitado, proporciona vivências inusitadas, aprendizagens ilimitadas; o belo e o mágico também frequentam a escola. Numa manhã de sexta-feira, por exemplo, não se espera que um aluno, no meio de uma atividade avaliativa chame a sua atenção dizendo: Pró, ó o pisca-pisca!O pisca-pisca era humano (seus olhos abrindo e fechando).
Uma das alocuções do protagonista do filme O jardineiro fiel, Justin Quayle, ajudou-me a refletir sobre o conceito de lugar. Justin afirmou que seu lugar, sua casa, era Tessa, sua esposa. Do mesmo modo, acredito que a escola - não o prédio, mas os seus transeuntes, as vivências nela proporcionadas - seja o meu lugar – digo, a minha viagem.

                                                         Texto: Professora Rosana Souza
                                    


Apresentação – a escrita é o meu divã


Feliz Dia do Semeador de sonhos!